O Departamento de Filosofia da USP disponibilizou sua aula inaugural de 2014, ministrada por Rolf Kuntz (ver aqui o post do evento). Na palestra "A Lei da Guerra - Um Tema Clássico" Kuntz retoma os fundadores do direito internacional (Vitória, Suarez e Grotius). Não apenas as teses centrais desses juristas-filósofos são objeto de análise, como a comparação das duas tradições contemporâneas do direito internacional daí resultante. Kuntz também rejeita a associação indevida entre as (supostas) semelhanças entre Grotius e Kant (o último muito mais próximo da tradição hobbesiana nas relações internacionais do que da grotiana). Existem guerras justas e injustas?
quarta-feira, 12 de março de 2014
Seminários IRI-USP 2014
O ciclo de seminários de 2014 do Instituto de Relações Internacionais da USP foi divulgado nesta semana. Entre as palestras de destaque, Phillippe Schmitter (European University) sobre democratização na Ásia e na África e Paulo Sérgio Pinheiro (Comissão Nacional da Verdade) sobre direitos humanos. As palestras ocorrem no IRI-USP e são abertas a todos.
- Seminários IRI-USP 2014

segunda-feira, 10 de março de 2014
Clara Charf: "A vida é luta"
Por conta das comemorações do Dia Internacional da Mulher, o caderno Aliás do Estado de São Paulo entrevistou Clara Charf, ex-militante comunista e viúva do político e guerrilheiro Carlos Marighella. Charf discutiu seu passado de militância, o papel da mulher nas lutas políticas brasileiras e reclamou dos jornalistas. Fica aqui a homenagem do blog ao dia da mulher:
[...]
"O que aprendi nesses anos todos: é preciso participar para conquistar espaço. Se eu tivesse ficado em casa, estaria até agora de braços cruzados, talvez fazendo tricô e casada com outro cara. Mas não consigo ver a vida da mulher isolada, partida da política. Hoje é relativamente mais ‘fácil’ ser mulher no Brasil, mas há muitos espaços a ganhar. A vida é construir, conquistar, pulsar. Para mim, a vida é luta."
A viúva vermelha
Juliana Sayuri - O Estado de S. Paulo
Clareou. Passava das 5h30 da matina dessa quarta-feira de cinzas e de nuvens tristes, ainda na ressaca do carnaval, enquanto as ruas paulistanas eram novamente tomadas por carros, buzinas e guarda-chuvas coloridos. Era o retorno à rotina da gente comum, que entre céu e concreto enfrenta trânsito caótico, trabalho chato, preço abusivo do filé ao café, tudo para voltar para casa e, depois de mais uma jornada, começar tudo de novo. Ainda chuviscando no início da tarde, enquanto caminhava pelas ruas do Bom Retiro, prestes a encontrar Clara Charf pela primeira vez, não imaginava que era justamente assim que a ilustre viúva de Carlos Marighella gostaria de ser retratada aos 88 anos: como gente comum.
Uma mulher comum, aliás. Quer dizer, tudo que ela não é. Clara Charf me recebeu na sua casa, após diversos pedidos de entrevista sobre sua luta feminista. Arisca, ressabiada e um tiquinho rabugenta, no primeiro minuto disparara do outro lado da linha: "Que que é esse tal Aliás?". Por fim, aceitou e abriu a porta, que trazia um tradicional capacho de "bem-vindos". De pele alva, olhos castanhos e fios brancos, a senhora vestia camisa vermelha, sua cor preferida, e jaqueta jeans. Se noutros tempos não tinha tempo para vaidades, dessa vez tinha batom rosinha, broche e brinco de flor.
A poucos passos da porta, uma mesa de madeira maciça. À esquerda, um calendário simples, um cartaz da comunista Soledad Barrett Viedma, adiante uma estante de madeira repleta de livros, entre muitos títulos sobre a ditadura e biografias de personalidades como Che e Lamarca.
A mesa, dividida. De um lado, uma toalha xadrez vermelha arrumada por Mazé, com café, bolo de maçã folhado e suco de uva kosher. De outro, orquídea branca, óculos, a biografia Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, de Mário Magalhães, uma revista Tpm e uns exemplares desse tal Aliás. "Vocês, jornalistas... Uma coisa é a profissão, o dever de trabalhar com a verdade, isto é, de publicar histórias que podem ser úteis para a sociedade.
Outra é querer transformar a vida em uma história de outro mundo. Não é assim. Somos todos iguais. Mas, por força das circunstâncias, cada um escolhe seu caminho." Ainda na mesa, um estojo negro com uma chapinha prata, assinada pela ministra Eleonora Menicucci, do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher: "Homenagem a Clara Charf, uma guerreira pela paz, justiça social e liberdade. Brasília, 18 de fevereiro de 2014". Em poucas palavras, esse foi o caminho escolhido pela militante pernambucana.
Nascida num 17 de julho em Maceió, Clara cresceu no Recife. Filiou-se ao Partido Comunista aos 21. Queria a liberdade dos céus, mas, como não pôde ser aviadora, encontrou asas num vestido azul na Aerovias Brasil. Não tardou para que a aeromoça se tornasse um pombo-correio, num leva e traz de documentos para o Comitê Nacional do PCB. Depois se tornou taquígrafa do Partidão. É desses tempos a famosa história de amor: a "branquinha" cruzou o caminho de outro partidão, o deputado Carlos Marighella, no Rio.
Apaixonaram-se. Gdal Charf, mascate e judeu russo, se desesperou: sua filha metida com um schvartz, roiter e goy! Para impedi-la de fugir com esse preto, comunista e cristão, o pai rasgou seus documentos e suas roupas. Clara se refugiou na casa da deputada Adalgisa Cavalcanti, que lhe costurou um vestido. Clara o vestiu e fugiu à noite com Marighella.
Ficaram juntos de dezembro de 1948 a novembro de 1969, quando o guerrilheiro foi assassinado pela repressão. Nunca casaram no papel, pois na época estavam na clandestinidade. Se na intimidade eles se tratavam por "Lobinho" e "Chapeuzinho", nas ruas os nomes eram outros. Ao lado de Marighella, Clara, um dia princesa d’A Classe Operária, do PCB, se tornou Nice, Sílvia, Vera, entre outros nomes fictícios. Teve diversos endereços, principalmente no eixo Rio-São Paulo, articulando apoio tático para a Ação Libertadora Nacional, a ALN, enquanto o comandante viajava para ordenar a guerrilha Brasil adentro. A militante comunista ainda se tornou Marta Santos, em São Paulo, e Claudia Gonzáles, em Havana.
Nessas mil faces de uma mulher leal, Clara viveu sob duas ditaduras - a de Getúlio Vargas (1937-1945) e a militar (1964-1985). Na última, foi uma das primeiras mulheres a ter os direitos políticos cassados. Após a morte de Marighella, declarado o inimigo n.º 1 pelos militares, Claudia se exilou em Cuba. Na ilha de Fidel, aprendeu espanhol e virou tradutora. A primeira nova palavra: cepillo. "Dessas discussões sobre médicos cubanos agora... Eles são ótimos. Uma vez, fiquei doente e fui internada. Tinha três camas no quarto: uma mulher de um alto comandante, uma faxineira e eu. Todas iguais. Queria escovar meus dentes e fiquei pedindo uma escova para a enfermeira. Logo descobri que ‘escova’ é vassoura no espanhol, imagina", ri alto e sorri.
Hoje Clara tem um sorriso fácil, sincero, sonoro. Por muito tempo, não foi assim - "Marighella dizia: Clara, você não pode sorrir nas ruas, senão vão logo te reconhecer". Em Havana, Claudia tampouco sorria, nem para tirar fotos, por medo de ser descoberta. A militante voltou ao Brasil com a anistia, em 1979. "Anistia te dá sua vida de volta. É a alegria de poder discutir, viajar, sair, encontrar amigos, reencontrar família, recomeçar", conta, sentando-se numa poltrona da sala, arejada por janelões, diante de um cartaz do documentário Marighella, dirigido por sua sobrinha Isa Grinspum Ferraz.
- Posso fazer um retrato da senhora?, perguntou o fotógrafo Daniel Teixeira.
- Ué, e você trouxe a máquina pra quê?
De volta a São Paulo, Clara virou bibliotecária para ganhar o pão - e voltou a militar nos movimentos sociais querendo lutar para dividir o pão. Filiou-se ao jovem Partido dos Trabalhadores e, em 1982, disputou uma vaga para deputado, defendendo direitos das mulheres - apesar dos 19.500 votos, não foi eleita. Durante a campanha, notou no primeiro comício que sua identidade finalmente se firmara quando um companheiro lhe perguntou: "Você não é a Nice?". "Não. Sou Clara Charf. De verdade."
sexta-feira, 7 de março de 2014
Seminários de Ciência Política (USP)
A programação deste semestre dos Seminários de Ciência Política da USP foi divulgada na semana passada. Entre os palestrantes convidados, Adam Przeworski (NYU), Maria Hermínia (USP), Gustavo Pereira (Republica) e George Tsebelis (Michigan). os seminários ocorrem as quintas e são públicos.
Prédio de Filosofia/Ciências Sociais da Cidade Universitária,
Av. Professor Luciano Gualberto, 315, São Paulo-SP.
Abertos ao público e à imprensa, sem necessidade de inscrição prévia.
quinta-feira, 6 de março de 2014
Fascismo, Rússia e Ucrânia
As raízes da crise ucrâniana vão além do simples descontentamento político dos ucrânianos com o governo de Viktor Yanukovych, argumenta o historiador Timothy Snyder (Yale). Em uma série de artigos para a NY Reiview Snyder sustenta que os manifestantes da Maidan (praça de Kiev onde os confrontos começaram) - compostos tanto por jovens estudantes pró-Europa como ex-veteranos da guerra do Afeganistão - na verdade travam uma luta contra o projeto geopolítico liderado por Putin conhecido como "União Eurasiana": uma união econômica e política de países europeus contrários à "decadência liberal" ocidental defendida pela União Européia.
(RIA Novosti/Alexei Furman)
- Synder: "Fascism, Russia and Ukraine"
[...]
The strange thing about the claim from Moscow is the political ideology of those who make it. The Eurasian Union is the enemy of the European Union, not just in strategy but in ideology. The European Union is based on a historical lesson: that the wars of the twentieth century were based on false and dangerous ideas, National Socialism and Stalinism, which must be rejected and indeed overcome in a system guaranteeing free markets, free movement of people, and the welfare state. Eurasianism, by contrast, is presented by its advocates as the opposite of liberal democracy.
The Eurasian ideology draws an entirely different lesson from the twentieth century. Founded around 2001 by the Russian political scientist Aleksandr Dugin, it proposes the realization of National Bolshevism. Rather than rejecting totalitarian ideologies, Eurasianism calls upon politicians of the twenty-first century to draw what is useful from both fascism and Stalinism. Dugin’s major work, The Foundations of Geopolitics, published in 1997, follows closely the ideas of Carl Schmitt, the leading Nazi political theorist. Eurasianism is not only the ideological source of the Eurasian Union, it is also the creed of a number of people in the Putin administration, and the moving force of a rather active far-right Russian youth movement. For years Dugin has openly supported the division and colonization of Ukraine.
The point man for Eurasian and Ukrainian policy in the Kremlin is Sergei Glazyev, an economist who like Dugin tends to combine radical nationalism with nostalgia for Bolshevism. He was a member of the Communist Party and a Communist deputy in the Russian parliament before cofounding a far-right party called Rodina, or Motherland. In 2005 some of its deputies signed a petition to the Russian prosecutor general asking that all Jewish organizations be banned from Russia.
Later that year Motherland was banned from taking part in further elections after complaints that its advertisements incited racial hatred. The most notorious showed dark-skinned people eating watermelon and throwing the rinds to the ground, then called for Russians to clean up their cities. Glazyev’s book Genocide: Russia and the New World Order claims that the sinister forces of the “new world order” conspired against Russia in the 1990s to bring about economic policies that amounted to “genocide.” This book was published in English by Lyndon LaRouche’s magazine Executive Intelligence Review with a preface by LaRouche. Today Executive Intelligence Review echoes Kremlin propaganda, spreading the word in English that Ukrainian protesters have carried out a Nazi coup and started a civil war.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Adam Przeworski na USP
O cientista político Adam Przeworski (NYU) ministrará na semana que vem a palestra The Partisan Logic of Women's Suffrage. Seguindo os desdobramentos de seu último livro, Democracy and the Limits of Self-Government, Przeworsky procura explicar a conquista histórica do voto feminino. Teria sido o voto feminino concedido ou conquistado? O evento também inaugura a programação anual dos Seminários de Ciência Política do programa de ciência política da USP.
Para aqueles com interesse em compreender melhor a carreira e os pressupostos de Przeworski (incluindo suas relações com o assim chamado "marxismo analítico"), a entrevista de 2003 concedida a Gerardo Munck é um bom ponto de partida.
Para aqueles com interesse em compreender melhor a carreira e os pressupostos de Przeworski (incluindo suas relações com o assim chamado "marxismo analítico"), a entrevista de 2003 concedida a Gerardo Munck é um bom ponto de partida.
segunda-feira, 3 de março de 2014
Livro: A Natural History of Human Thinking
O antropólogo Michael Tomasello (Max Planck) acabou de publicar pela Harvard Press o livro A Natural History of Human Thinking fruto de mais de duas décadas de estudos no instituto de antropologia evolutiva do laboratório alemão Max Planck. Tomasello é famoso por suas teorias sobre a evolução da cooperação social entre primatas (ver, por exemplo, o livro Why We Cooperate baseado em sua Tanner Lecture de 2008) e sobre as bases culturais da cognição humana. Excelente livro para quem quer ter uma visão panorâmica dos resultados da antropologia evolutiva humana.
Michael Tomasello
Tool-making or culture, language or religious belief: ever since Darwin, thinkers have struggled to identify what fundamentally differentiates human beings from other animals. In this much-anticipated book, Michael Tomasello weaves his twenty years of comparative studies of humans and great apes into a compelling argument that cooperative social interaction is the key to our cognitive uniqueness. Once our ancestors learned to put their heads together with others to pursue shared goals, humankind was on an evolutionary path all its own.
Tomasello argues that our prehuman ancestors, like today’s great apes, were social beings who could solve problems by thinking. But they were almost entirely competitive, aiming only at their individual goals. As ecological changes forced them into more cooperative living arrangements, early humans had to coordinate their actions and communicate their thoughts with collaborative partners. Tomasello’s “shared intentionality hypothesis” captures how these more socially complex forms of life led to more conceptually complex forms of thinking. In order to survive, humans had to learn to see the world from multiple social perspectives, to draw socially recursive inferences, and to monitor their own thinking via the normative standards of the group. Even language and culture arose from the preexisting need to work together. What differentiates us most from other great apes, Tomasello proposes, are the new forms of thinking engendered by our new forms of collaborative and communicative interaction.
A Natural History of Human Thinking is the most detailed scientific analysis to date of the connection between human sociality and cognition.
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