segunda-feira, 18 de abril de 2016

Escola de Verão: "Exploring the Commons" (UMinho)

O Grupo de Teoria Política do Minho convida a todos/as os/as interessado/as para a quarta edição de sua Escola de Verão de Filosofia Política e Política Pública. O tema dessa edição será a ideia de commons (ou "comuns") presente na tradição econômica e jurídica ocidental e, especialmente, em sua recuperação pela teoria política contemporânea, seja na idéia do espaço público democrático como uma espaço comum entre iguais, seja nos modelos de uso de recursos comuns apropriados coletivamente. Os palestrantes serão Karl Widequirst (UCL) e Axel Gosseries (Georgetown). 



Professors:

When: 18-21 July 2016
Where: University of Minho, Braga (Portugal)



Course Description: In recent years there has been a resurgence of interest in issues at the intersection of political philosophy and public policy. In particular, attention has increasingly turned to the question of what kind of institutions and policies would be needed in order to create a significantly more just society. Following past summer-schools on topics such as a basic income (2013), predistribution and property-owning democracy (2014), the ethics of banking (2015), this year’s summer school will be devoted to the commons. The topic of the “commons” is an expanding issue of interest within academia, where it combines different and complementary disciplines (philosophy, history, law, political science, economy, …). It is also a very important discussion outside academia. The “commons” is a social space which people can enter and leave freely; in which they relate as equals; and in which they work cooperatively, to solve a problem, meet a need, or just enjoy creativity for its own sake. In this school we will explore the ways in which society has a strong responsibility to protect a sufficient commons and to ensure that anyone holding an asset removed from the commons pays compensation to everyone else.

Professor Karl Widerquist will in his lectures introduce us to the political philosophy of the commons by laying out and indepentarian theory of justice and applying that theory to the justification of government and property rights. It uses ideal and practical political theory to argue that both the justification of the state and the justification of private property require the payment of a basic income guarantee. This payment is necessary not only to preserve status freedom, but also to compensate those who dissent from the institutions that powerful people have endowed with authority over land and natural resources. It will be argued that society owes compensation to the rational and reasonable dissenters. This conclusion is very different from typically arguments for a natural right to private property, because such arguments usually ignore the loss of negative freedom accompanied by the loss of access to the commons in any system that creates property without compensation to non-owners.

Professor Axel Gosseries will in his practical sessions explore moral dilemmas that may arise within the forms of production and consumption which occur through various kinds of “commons” such as:
(a) protecting and preserving local natural resource commons;
(b) creating wider, transnational and global natural resource commons;
(c) protecting capacities for Commons-based peer production (CBPP) for information goods;
(d) developing rights of open access to more information goods;

 Inscription: If you would like to participate, please send an e-mail to Roberto Merrill (nrbmerrill@gmail.com) by 20 May 2016. If you also wish to give a talk during the School, please send us an abstract between 300 and 500 words.

Fee: 70 euros

***
This event is organized by the Political Theory Group of CEHUM, University of Minho (Braga),
Contact: Roberto Merrill (nrbmerrill@gmail.com). 


domingo, 17 de abril de 2016

O golpe como um conflito distributivo

Por Lucas Petroni

É tentador pensarmos que o país vive hoje uma falta de liderança política, que cidadãos e cidadãs estejam perdidos em seus anseios e valores, que não consigam encontrar uma luz ideológica no fim no túnel do carnaval de horror da nossa política partidária e que por causa dessa ausência vivemos um impasse político e social.

A perda de liderança política é matéria constante na grande mídia e, recentemente, passou também a fazer parte das matérias sobre o Brasil em jornais estrangeiros. Essa é a narrativa da ausência. É essa narrativa que orienta a interpretação, por exemplo, da análise da revista Fortune sobre a crise brasileira  que termina a concluiu com o chamado: "alguma liderança é necessária [...] urgentemente". 

A explicação da crise pela ausência de lideranças é relativamente simples: assume-se que perdemos grandes nomes políticos e partidos inteiros, seja por falta de reposição natural, seja pela "desmoralização" da política, e que isso tenha nos custado um projeto coeso enquanto nação. O que a narrativa da ausência quer um consenso político, mesmo que seja de tipo de descartável até um futuro mais promissor em termos da qualidade humana dos nossos líderes.

Essa narrativa alimenta não só a mente dos jornalistas como também lugares mais sérios como a academia e os fóruns políticos brasileiros. Um dos juristas por trás do golpe afirmou, por exemplo, que estaríamos "órfãos" de lideranças e valoresDe fato, a fala do jurista possui um tom mais autoritário, escorregando em uma associação comprometedora entre problemas políticos, de um lado, e a figura convencional do despotismo no mundo clássico. Despostes, em grego, significa literalmente, o dono da família, e despótica é aquela pessoa quem gostaria de tratar os membros do mundo político como filhos e filhas ou, no mundo antigo, como escravos.

Mas não devemos nos enganar. A narrativa da ausência está lá. Precisamos de um líder, um movimento ou mesmo uma só ideia que possa nos salvar... de nós mesmos. Segundo a opinião do historiador José Murilo de Carvalho, nunca deveríamos subestimar a habilidade do "Brasil em se sabotar", isto é, nossa incapacidade de nos autogovernar, em não saber o quer queremos especialmente diante da falta de lideranças morais e técnicas.

Devemos nos resignar e aceitar a narrativa ausentista? Acredito que não. Ao contrário, devemos rejeitá-la (para usar a retórica da Fortune, deveríamos rejeitá-la "veementemente"). Temos duas boas razões para isso: uma de natureza empírica e outra moral.




De fato, os termos do contrato social da redemocratização parecem ter se esgotado e é extremamente difícil de saber com clareza quais são as alternativas disponíveis. Em termos extremamente sintéticos, tal consenso macroeconômico apostava na fórmula crescimento com redistribuição via mercado de trabalho formal, com auxílio social aos extremamente pobres.

Mesmo assim acredito que a visão da ausência é errada. Estamos de fato perdidos? Temos boas evidências para mostrar que estamos divididos, mas não perdidos. Na verdade, isso demostra não apenas que sabemos o que queremos como também que talvez tenhamos finalmente nos achado no quadro ideológico.

Segundo a pesquisa do Datafolha publicada no último dia 9 de abril, mais da metade dos entrevistados (63%) avaliam o governo Dilma como ruim/péssimo, contra apenas 24% regular e 13% ótimo ou bom. Esse dado poderia indica  para sustentar a tese da ausência - e tem sido usado como tal pela mídia para apoiar o golpe jurídico. Seríamos um país que não nos reconhecemos no governo, na oposição ou em qualquer tipo de partido. Um país sem liderança. Ou melhor: um país esperando lideranças.

Na verdade, como o Data Popular já havia mostrado, essa é uma interpretação espúria dos dados. Podemos ter razões simetricamente opostas contra um mesmo governo e, ao que parece, é esse o caso no segundo governo Dilma. Os descontentes com o status quo político brasileiro possuem razões determinadas, identificáveis. Segundo Renato Meirelles do Data Popular os motivos do descontentamento com o governo entre as classes C e D são diametralmente apostos aos das B e A:

"essa desaprovação [...]  ocorre em todas as classes. A diferença é que, para esses segmentos de menor renda, não existe ódio ao governo, mas decepção. Temos 46% decepcionados por causa do que se prometeu e não foi cumprido, mas é gente que concorda com o projeto apresentado [...] Entre outras razões, esses grupos querem um Estado eficiente, mas não um Estado enxuto. Pois eles usam a educação pública, a saúde pública, aprovam o Mais Médicos".

Assumindo que todos os dados mencionados até o momento sejam consistentes, dois argumentos contrários podem ser identificados. Argumentos com implicações distributivas claras. Vamos chamá-los, respectivamente, de descontentes conservadores e descontentes radicais (notemos que essa não é a diferença midiática entre "coxinhas e petralhas").

Em primeiro lugar, todos os tipos de descontentes defendem um gasto governamental eficiente e responsivo aos interesses da população - informação essa menos trivial do que parece a primeira vista, basta ver o discurso de ódio de apoiadores do golpe contra o que acreditam ser dependentes irresponsáveis do Estado de bem-estar. De um lado, os descontentes conservadores querem um Estado enxuto, com pouco gasto social, baixa inflação e expressivo crescimento econômico (grande parte gostariam também de moeda forte mas é controverso o quanto podemos ter ambos, isto é, crescimento e valorização do real).

Em linhas gerais essa é exatamente a proposta do governo golpista Temer-Cunha. Corte de gastos, re-pactuação com os investidores estrangeiros e, sobretudo, a flexibilização das leis trabalhistas. Na verdade, podemos dizer que uma reforma trabalhista detalhada foi anunciada antes mesmo da oposição conseguir dar o golpe. Podemos não gostar da qualidade moral dos golpistas, mas a mensagem é clara: ao revisar os termos do pacto social demanda-se crescimento econômico em detrimento de distribuição. 

Do outro lado, eficiência significa bom provedor de serviços públicos, proteção social às famílias durante a crise e regulação do mercado de trabalho. Espera-se que o governo lute para manter aberta a janela de oportunidade de ascensão social, o que significa não apenas manter programas sociais baratos mas, principalmente, manter a estrutura do Estado de bem-estar. Como um colega me lembrou recentemente, na próxima eleição teremos a primeira participação eleitoral dos beneficiados pela bolsa-família. Seria interessante compreender o que essa geração tem a dizer sobre o futuro do gasto público no país. Daí a ideia de trazer o Lula como ministro e de se reaproximar dos movimentos sociais - tomada às pressas pelo governo Dilma. Descontentes radicais querem garantir distribuição antes de re-discutirmos crescimento.

É fácil ver que não estamos perdidos em nossos interesses. A divisão reflete a falta de base material para mantermos ambas as ambições de modo prioritário. A eleição de 2014 escolheu uma delas. A oposição não aceita e o governo tem dificuldade em assumir seus compromissos de campanha. Contudo, ao não discutirmos abertamente as bases materiais desse conflito, ao tratar "crise econômica" como um conceito mágico, auto-explicativo, e optando por analogias paternalistas ao invés de apresentar argumentos, perdemos uma excelente oportunidade para testarmos os melhores alternativas presentes nos dois lados da disputa.

Podemos até mesmo encontrar alternativas sub-exploradas. Por exemplo, o fato de que temos uma das maiores concentrações de renda do mundo protegida por um sistema tributário regressivo. Se quase 1/4 da riqueza nacional tem sido apropriada pelo 1% mais beneficiado pela cooperação social ao longo de um século, e se o imposto de renda e de propriedade rural são regressivos, talvez seja hora de resdiscutirmos quem deve pagar a manutenção do Estado de bem-estar social. Rejeitar o aumento de imposto sobre consumo é uma possível forma de aliança entre os 90%. Não consigo entender porque a classe média que, em geral, apoia a provisão de serviços públicos de qualidade, necessariamente se alinharia aos 1,5 milhões de brasileiros que compõem o 1% não estão preocupados com o desmonte do SUS ou com a reestruturação das escolas públicas.

Finalmente, como afirmei no começo, a narrativa da ausência é desrespeitosa. Ausentistas tendem a tratar a posição política alheia como uma manifestação de estupidez. É interesse notar que a suposta ausência de liderança afetaria sempre a posição dos outros, nunca a de que enuncia a tese. A narrativa não admite a  primeira pessoa - "eu não tenho líder", "eu estou órfão de ideias"- ainda que seja perfeitamente possível não sabermos exatamente aquilo que queremos. A força do argumento vem sempre do uso da terceira pessoa: "eles (os brasileiros, o povo, etc.) estão carente de líderes".

Além da falta de base empírica no caso brasileiro, revela-se com isso um juízo implícito sobre a assimetria da distribuição de autonomia pessoal. Aquele que não tem líder - o "ele/elas" do discurso da ausência - é visto como uma criatura limitada, a ser sujeitada por um discurso político esclarecido. Certamente, podemos não gostar do que os nossos concidadãos querem e devemos estar preparados para contestá-los quando for o caso. Nada é mais revoltante do que a festa do fascismo dominical filmado pela Globo. Mas ainda assim é desrespeitoso acreditarmos que as pessoas simplesmente não sabem o que fazem quando o fazem.

A própria ideia do que significa viver politicamente entre iguais é desrespeitada pelos ausentistas (sejam eles coxinhas ou petralhas, vale lembrar). A falácia contida no argumento conclui que, a partir do fato de que existe uma divergência profunda sobre a melhor solução para um problema social, que a divergência em questão é na verdade fruto da ignorância cognitiva de quem diverge.

Fruto de nossa tendência à "auto-sabotagem", segundo o historiador. O ausentista afirma que não deveriam existir desacordos ou que, se eles existem, as pessoas deveriam ser levadas a acreditarem - em nome de um bem maior ? - que eles não existem. Talvez, o conflito distributivo brasileiros deveria ser tratado como se não fosse um problema ou que, afinal, não vivemos na democracia mais economicamente injusta do mundo. O problema é que muito provavelmente as classes D e C possam não queiram viver nessa fantasia.

O problema é que a divergência atualmente em curso no Brasil existe, é aguda e não é causada apenas pelo desordenamento das nossas paixões. Existe um conflito distributivo grave em andamento. Narrativas que ignorem esse fato sirve para justificar a desestabilização de um governo que, para o bem ou para o mal, encontra sua justificação na legitimidade democrática. Destruir essa legitimidade é sacrificar a única forma civilizada de resolvermos problemas como esses em um ambiente de pluralismo de interesses materiais e conflitos de valores, na maioria das vezes irredutíveis. De fato, esse conflito não explica tudo. Talvez explique pouco até. Mas tentar ignorá-lo é desrespeitar nossa inteligência.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Leonardo Avritzer: "A caça ao Lula"

O cientista político Leonardo Avritzer (UFMG) publicou na última edição da Boston Review uma detalhada explicação do papel do judiciário na crise política brasileira. Para Avritzer, pesquisador especialista sobre o arranjo institucional da Constituição de 88, o recente movimento nacional contra a corrupção (especialmente) pública no país seria a realização das intenções no novo arranjo constitucional. Arranjo que, paradoxalmente, só pôde ser efetivamente implementado, segundo o cientista político, com o suporte político e material dos últimos governos do PT - Avritzer lembra, por exemplo, os esforços de governos anteriores, como o de FHC, no enfraquecimento da atuação da PF e do Ministério Público em membros de sua coalizão. 

Contudo, as ações inconstitucionais do juiz Sérgio Moro, tais como a violação do devido procedimento legal na conduta da Lavo Jato e a triste partidarização midiática da corrupção provida pelas Organizações Globo e pelo Estado de S. Paulo, em sua tentativa de criminalizar o PT e, com isso, inviabilizar eleitoralmente partidos progressistas no país, podem justamente comprometer aquilo que foi conquistado a duras penas até agora, a saber, a construção do consenso de que o sistema de financiamento político-partidário no país não apenas é injusto como potencialmente criminoso. A cruzada moralista dos apoiadores de Moro contra a própria ideia de partido - com frequentes referências religiosas ou ultra-nacionalistas - tende a fornecer munição ideológica ideal para aventureiros políticos, como o próprio juiz de primeira instância que já conta com projeção eleitoral superior a um dos atuais líderes do golpe, o senador José Serra (PSDB/SP): 

"Lava Jato has won Sérgio Moro many fans in Brazil, and the global press can’t stop gushing. Fortune magazine ranked him thirteenth in its list of the world’s greatest leaders, the Washington Post called him “Brazil’s new hero,” and the Wall Street Journal compared him to a soccer star. Yet admirers in Brazil and abroad tend to downplay his violations of the rule of law and the politization of his investigation.
Moro is a student of anti-corruption prosecution and is influenced by Italy’s early-1990s Mani Pulite (“clean hands”) operation, about which he wrote in 2004. In his article, he claims the virtual extinction of the Italian Christian Democrats and Socialists as benefits of Mani Pulite. Given how he has overseen Lava Jato, it seems clear that he hopes his operation will mirror the effects of Mani Pulite, ridding the nation of a left-leaning political party, in this case the PT".

Para Avritzer, o episódio da publicação da lista de (suposto) financiamento da Odebretch confirmaria a seletividade da cruzada pessoal de Moro: mesmo tendo obtido o documento um mês antes da liberação, motivada por retaliação contra o Supremo Tribunal, a força-tarefa de Curitiba decidiu concentrar suas energias exclusivamente contra o Partido dos Trabalhadores e, particularmente, contra Lula, sua principal liderança nacional. Lula que, ao que tudo indicia, não parece estar implicado nas investigações. Como conclui Avritzer, é sempre preciso ter sempre em mente que, após as Mãos Limpas na Itália, os grande vitoriosos foram a grande mídia e as lideranças de extrema direita do país:

"After illegally releasing Lula’s tapes, Moro appeared on presidential polls with 9 percent backing, a notable level of support for a non-politician, indicative of his continuing popularity. If Brazil gets an Italian solution—the destruction of the major parties—Moro would be well placed to run for the presidency. Influential public figures unscathed by the scandal, such as dominant media players, may benefit as well. After all, it was the removal of the traditional parties in Italy that created an opening for media mogul turned Prime Minister Silvio Berlusconi. It will therefore be important to watch how Globo reacts to any deal to preserve today’s parties.
The first scenario is the more promising for the future of Brazilian democracy, even if it means maintaining parties that have harbored corruption. This path will involve punishing more harshly systemic corruption at Petrobras. On the basis of plea bargains, Moro sharply reduced sentences of Petrobras officials from a total of 283 years to just 6, limiting the deterrent effect of prosecution. Furthermore, if the political system is to endure, the parties must adopt a new, less compromising approach to financing electoral campaigns.
Meanwhile, the judiciary needs to ensure that corruption investigations do not violate the rule of law. In other words, Moro will have to decide whether he is a politician—committed to winning popularity, burnishing his media image, and defeating opposing parties—or a judge, prepared to follow the rules and apply them equally".

- Avritzer: "Chasing Lula" (Boston Review)

sábado, 9 de abril de 2016

Laymert dos Santos: "O intolerável"

Durante o ato de lançamento da Carta à Comunidade Acadêmica Internacional contra o impedimento presidencial de Dilma Rouseff (veja a íntegra da carta no post abaixo ), o sociólogo Laymert Garcia dos Santos (UNICAMP) apresentou o texto "O Intolerável" no qual oferece sua interpretação sobre as sucessivas tentativas de desestabilização do governo Dilma desde sua reeleição no final de 2014. 

Diferentemente das análises convencionais, nas quais a reconfiguração dos termos do conflito político brasileiro aparece como a principal chave explicativa da crise, Laymerte dos Santos procura ressaltar o que identifica como elementos "neocoloniais" do movimento anti-PT. Esses elementos estariam presentes tanto no vocabulário dos movimentos de direita, como no interesse do capital internacional diante da desarticulação da industria de petróleo e a implementação de políticas de austeridade econômica como única solução para o déficit público brasileiro.

O treinamento de procuradores e juízes brasileiros em congressos internacionais de "anti-terrorismo" organizados pelos EUA seria uma evidência importante na corroboração da sua tese: a tentativa de criminalização judicial de governos de esquerda na América Latina como estratégia alternativa frente às sucessivas derrotas eleitorais de programas conservadores no continente. 

Correta ou não, a tese de Laymert é extremamente valiosa por dois motivos. Primeiro, na medida em que redimensiona a crise brasileira no cenário geopolítico latino americano que conta com casos parecidos de tentativas de golpe constitucional. Segundo, porque nos ajuda a explicar, em parte, a seletividade da indignação pública brasileira. A noção de corrupção atualmente em voga em nossa esfera pública é duplamente seletiva: é seletiva entre líderes da oposição e governo mas, de modo menos previsível, é seletiva também entre casos de corrupção pública e privada, como, por exemplo, o silêncio constrangedor de movimentos anti-corrupção sobre o caso da sonegação de 1,5 bilhão de reais - seguida de pagamento de propina - envolvendo o banqueiro José Safra

Tal como na campanha anti-terrorismo norte-americana, por aqui algumas ameaças também são mais aterrorizantes do que outras. A apresentação de Laymert pode ser conferida abaixo, sua transcrição, aqui.

Agradeço a Rafael Abreu pelo envio da apresentação.




[...]

Moro e os procuradores de Curitiba são os soldados da desestabilização. Janot e os procuradores de Brasília são o Alto Comando. Eles formam a espinha dorsal de um dispositivo de destruição da política como forma de entendimento do coletivo. Treinados em seminários e colóquios pelos especialistas em “cooperação”, aprenderam as novas tecnologias jurídicas, políticas e policiais do “contra-terrorismo”, importaram e implementaram a estratégia do caos. E não podemos sequer alegar que não fomos alertados: Snowden, em 2013, havia revelado os grampos da NSA contra Dilma e contra a Petrobrás; mas não sabemos se o que a espionagem apurou na petrolífera forneceu material para a Lava Jato. Por outro lado Wikileaks nos informa que Moro e procuradores participaram entusiasticamente, já em outubro de 2009, de uma conferência no Rio de Janeiro, na qual pediram treinamento aos americanos da Coordenação do Contra-Terrorismo – treinamento multijuridicional, prático, inclusive com demonstrações sobre como preparar uma testemunha para depor. Nas palavras do próprio documento vazado: “Treinamentos futuros devem focar áreas como força tarefa sobre ilícitos financeiros, que podem se mostrar a melhor maneira de combater o terrorismo no Brasil”.

Sabemos que no Brasil não há terroristas e sabemos quem ganha com a criminalização da esquerda. Já sabemos, portanto, quem quer a desestabilização. Por isso, para além da defesa de uma Presidenta eleita e de um ex-Presidente caçado injustamente, está em questão a defesa da democracia e da soberania. Quer dizer: da construção do futuro. Daí, a pergunta: Vamos continuar tolerando o intolerável?


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Carta Aberta à Comunidade Acadêmica Internacional

A comunidade acadêmica brasileira publicou um manifesto internacional contra a tentativa de impedimento presidencial do governo Dilma Rousseff. O documento, que pode ser lido em inglês (abaixo), portuguêsespanhol francês, na plataforma Brazil Observatory conta com mais de 3 mil assinaturas. O manifesto representa um esforço coletivo da comunidade de pesquisadores e pesquisadoras brasileiros/as, e eventuais apoiadores, de alertar a comunidade internacional sobre a tentativa de golpe constitucional atualmente em curso no Brasil, encabeçado pela oposição conservadora à presidente Dilma, setores do judiciário e a principal organização de comunicação do país, o Grupo Globo

A carta procura contextualizar o problema da corrupção política no país, destacando o papel central dos líderes da oposição no escândalo da Lava Jato, registrando as ameaças às proteções constitucionais e o uso seletivo das investigações e, finalmente, o uso estratégico da operação como uma tentativa inconstitucional de alterar o ciclo eleitoral brasileiro. Como concluiu o documento:

"O risco da ruptura da legalidade, por uma associação entre setores do Poder Judiciário e de meios de comunicação historicamente alinhados com a oligarquia política brasileira, em particular a Rede Globo de Televisão – apoiadora e principal veículo de sustentação da ditadura militar (1964-1985) -, pode comprometer a democracia brasileira, levando a uma situação de polarização e de embates sem precedentes. Por isso gostaríamos de pedir a solidariedade e o apoio da comunidade acadêmica internacional, em defesa da legalidade e das instituições democráticas no Brasil".

A lista atualizada das assinaturas pode ser encontrada aqui.


Open Letter to the International Academic Community

We, professors and researchers from Brazilian universities, hereby address the International Academic Community to report serious breaches in the rule of law currently taking place in Brazil.
After a long history of coups and a violent military dictatorship, our country has enjoyed its longest period of democratic stability since the 1988 Constitution established a number of individual and civil rights.
Despite progress in recent years with respect to social policy, Brazil remains a deeply unequal country with a political system marked by high levels of patronage and corruption. The influence of big business in the electoral process through private campaign financing has led to consecutive corruption scandals involving politicians from all sides.
In recent years, a national outcry against corruption has increasingly dominated public opinion. Public accountability and law enforcement agencies have responded by intensifying anti-corruption efforts, targeting major companies and political elites.
Unfortunately, this laudable process has been used to destabilize a democratically elected government, resulting in an exacerbation of the current economic and political crisis in our country.  The same judiciary that should protect the political and legal integrity of our country has become an epicenter of this process.
The main anti-corruption investigation, the “Operação Lava Jato” (Operation Car Wash), is headed by a lower level federal judge, Sérgio Moro, who has systematically utilized procedures that Brazilian legislation clearly defines as exceptional, such as pre-trial detention and coercive transportation of witnesses for depositions. Arbitrary detentions have been openly justified as a method to pressure the accused into accepting plea bargains in which they denounce alleged accomplices. Information about the cases has been regularly and selectively leaked to the media. Indeed, evidence suggests that the press has received prior information about important police operations so as to mobilize public opinion against the accused. Even the nation’s President was targeted by an illegal wiretap. The above-named judge subsequently handed over excerpts of both legal and illegal wiretaps to the press for public disclosure, even when they involved private discussions with no relevance to the investigation. The purpose was clearly to embarrass specific politicians.
Complaints against leaders of political parties in the opposition have been disregarded and silenced by the mainstream press. At the same time, although the “Operação Lava Jato” has has yet to accuse President Dilma Roussef,  the corruption investigations have been used to support impeachment proceedings in the House of Representatives, led by Speaker Eduardo Cunha, an opposition congressmen. Cunha, however, is accused of corruption and is being investigated by Ethics Committee of the same House.
When the actions of public authorities begin to challenge basic legal rights such as the presumption of innocence, equal protection, and due process, we must exercise caution. When noble ends seem to justify procedural breaches, the danger is enormous.
Sérgio Moro does not have the necessary exemption and impartiality to head the current investigations. The fight against corruption must be conducted within strict legal boundaries that respect the fundamental rights of defendants.
Segments of the judiciary involved in this process have worked in close in alliance with the mainstream media, that has been historically aligned with Brazil’s political oligarchy. In particular, the country’s largest television station, the Globo Television Network, openly supported the military dictatorship (1964-1985).
We fear that the breakdown of the rule of law underway is a threat to Brazilian democracy that may lead to grave and even violent social polarization.
For these reasons, we ask our colleagues abroad for solidarity and support in the defense of legality and of Brazil’s democratic institutions.

 Supports the Open Letter) ]

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Doutorado no Minor Cosmopolitanisms (Postdam University)

O centro de pesquisa Minor Cosmopolitanisms sediado Universidade de Postdam (Alemanha), abriu edital para pesquisas de doutorado nas áreas de justiça global, migrações e cosmopolitismo. O centro tem por diretriz principal estimular pesquisas sobre cosmopolitismo que questionem, ou rejeitem, a perspectiva eurocêntrica convencional sobre o tema (os "cosmopolitismos menores"). O prazo para a submissão das candidaturas é 15 de maio. As áreas de interesses, os/as supervisores/as do centro e os detalhes do processo de submissão podem ser encontrados na chama abaixo:



The Research Training Group Minor Cosmopolitanisms (Graduiertenkolleg GRK 2130), funded by the German Research Council (DFG) and conducted jointly by Universität Potsdam, Freie Universität Berlin and Humboldt-Universität zu Berlin, announces 12 Positions starting on October 1st 2016for 26 hours of work per week (65 %). The salary is determined by the collective bargaining agreement for public employees in Germany (TV-L 13 Ost). These are temporary positions limited to a term of three years in accordance with Section 2 Para 1 of the Academic Fixed-Term Contract Law (WissZeitVG).
The Research Training Group (RTG) Minor Cosmopolitanisms wishes to establish new ways of studying and understanding the cosmopolitan project against and beyond its Eurocentric legacies. It attempts to overcome a divide that characterises cosmopolitan thought between ‘major’ sociological and philosophical readings of cosmopolitanism as either ‘actually existing’ or as a normative ideal. The RTG straddles both perspectives by investigating cosmopolitanisms as emerging in a transversal plurality of locally embedded representational and performative practices. The minor denotes a perspective crucially informed by post- and decolonial thought and builds on interpretations of cosmopolitan practice which have been variably qualified as “agonistic,” “black,” “creole, “decolonial,” “discrepant,” “indigenous,” “rooted,” “subaltern” or “vernacular.” They bring into being cosmopolitanisms in a ‘minor’ mode unforeseen by dominant scripts and creating new subject positions within dominant discourses and geopolitics.
Research projects will be clustered around five core thematic areas of training. These are minor cosmopolitan theory, justicebodiesmemory and indigeneity (see Research areas for a detailed description). For each thematic field, projects should deal with theoretical approaches, literature and other media of artistic production, and/or everyday practices in which minor cosmopolitanisms are acted out.
RTGs are established by universities to promote researchers in the early stages of their academic careers. Their key emphasis is on the qualification of doctoral researchers within the framework of a focused research programme and a structured training strategy.
The RTG locates Potsdam and Berlin at the crossroads of eight partner institutions on four different continents (Macquarie University Sydney, UNSW Sydney, Delhi University, EFLU Hyderabad, University of Pretoria, University of Cape Town, York University Toronto and Duke University, Durham). Successful applicants will receive an employment contract for the period of three years with one of the participating universities in the Potsdam/Berlin area and will be admitted as PhD students at the same university. They are encouraged to spend two semesters (9 months) at one of the partner institutions during the second year of their contract.
Candidates are invited to apply by proposing their own dissertation project within the thematic scope of the project. Applicants must have completed an M.A. degree or equivalent in one of the disciplines represented in the RTG (literary studies, cultural studies, cultural anthropology, sociology, history, Jewish studies) or in a related academic field (e.g., post- and decolonial studies, gender/queer studies, critical Europeanisation studies, border studies). A high level of proficiency in English is required. The project’s working language is English.
Candidates are expected to take up residence in the Potsdam/Berlin area and to take an active part in the activities of the Research Training Group.
The majority of working hours will be reserved for the successful completion of a PhD within a period of three years. The RTG strives for a balanced gender ratio in all occupational groups; therefore women are strongly encouraged to apply.. Applicants with disabilities will be given preference in case of equal qualification. The RTG specifically encourages applications by international candidates, especially from the global South.
Applications must be submitted by May 15th, 2016. Submission via the online application tool provided on the website is highly recommended. Please consult the website for information on the project and for details of the application process. For further inquiries contact the RTG’s coordination office.
In the case of submission by post applicants are required to include a self-addressed stamped envelope to facilitate the return of their documents.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Jeremy Waldron: Teoria Política Política

Jeremy Waldron (NYU) publicou uma reunião de seus artigos que tem por objeto às instituições políticas e, acima de tudo, a sua ausência no debate atual da filosofia política. Entre as principais instituições analisadas pelo filósofo estão o instrumento da revisão judicial em democracias (um artigo que reformula sua famosa objeção contra a defesa dworkiniana do expediente), a divisão de poderes e, dentro dela, a divisão do legislativo entre câmaras altas e baixas e o próprio conceito de constituição política na teoria contemporânea.

Contudo, o principal texto da coletânea é o ensaio que dá nome à coletânea: "Political Political Theory". Originalmente publicado como a aula inaugural de Waldron à frente da prestigiosa Cátedra Chichele em Oxford (cátedra que contou com outros pesquisadores importantes como Isaiah Berlin Charles Taylor e G. A. Cohen), o ensaio já é considerado uma contribuição importante à teoria política. O artigo é uma espécie de manifesto intelectual contra o uso de princípios morais na teoria política, uma prática comum que, segundo Waldron, por um lado tem dominado os departamentos de filosofia nas últimas três décadas e, por outro, tem comprometido a relevância da produção intelectual para os problemas concretos de nossas sociedades. Na formulação de Waldron, essa visão teria por objetivo uma teoria política moral.

Já uma teoria política política, por sua vez, deveria dar mais atenção para a natureza e o papel das instituições políticas reais, tendo como pressuposto não apenas agentes morais mas sujeitos históricos presos às nossas limitações humanas. Ao invés de centrar a atenção nos fins últimos da vida em sociedade ou na interpretação de valores morais fundamentais, uma teoria política verdadeiramente política deveria ter em mente aquilo que Hume chamava de "os humores e características casuais dos homens particulares", ou seja, a limitação da racionalidade humana em contextos sociais concretos.

"Instituições [políticas]", afirma Waldron, "são imensamente importantes. Justamente na medida em que discordamos em relação aos fins éticos ou políticos da vida em comum, precisamos refletir sobre as estruturas que abrigam e refinam essas disputas e os processos que regulam o meio pelo qual as solucionamos, isto é, como nós (em nossos milhões de pessoas) solucionamos desentendimentos sobre fins diversos que, não obstante, consideramos extremamente importantes - sem degenerá-las em lutas conduzidas por nosso auto-interesse ou, pior, por milícias moralistas" (p. 8).

O argumento de que a teoria política contemporânea vive sob a colonização de teorias fundadas em princípios morais, e que essa centralidade teria descaracterizado a disciplina em sua verdadeira vocação, encontrou diferentes vozes nas últimas décadas,  tais como Bernard Williams e Michel Walzer. Contudo, diferentemente de outros autores anti-moralizantes, que tendem a contrapor a ênfase em princípios morais às emoções ou virtudes humanas, tais como o medo e o patriotismo, a grande contribuição de Waldron em Political Political Theory: Essays on Institutions é, a partir da tradição de Montesquieu, Hume, Madison e John Stuart Mill, reapresentar uma terceira possibilidade aparentemente esquecida pelos teóricos: as instituições políticas nas quais somos obrigados a expressar nossos valores e emoções em sociedades pluralistas. Nada parece mais urgente no atual cenário politico do país.

A maioria dos artigos de Waldron já havia sido publicados via SSRN. Os links para os artigos podem ser encontrados abaixo. 




Political Political Theory: Essays on Institutions (Harvard, Press)
Jeremy Waldron
Political institutions are the main subject of political theory—or they ought to be. Making the case with his trademark forcefulness and intellectual aplomb, Jeremy Waldron argues in favor of reorienting the theory of politics toward the institutions and institutional principles of modern democracy and the mechanisms through which democratic ideals are achieved.
Too many political theorists are preoccupied with analyzing the nature and importance of justice, liberty, and equality, at the cost of ignoring the governmental institutions needed to achieve them. By contrast, political scientists have kept institutions in view, but they deploy a meager set of value-conceptions in evaluating them. Reflecting on an array of issues about constitutional structure, Waldron considers the uses and abuses of diverse institutions and traditions, from separation of powers and bicameralism to judicial review of legislation, the principle of loyal opposition, the nature of representation, political accountability, and the rule of law. He refines his well-known argument about the undemocratic character of judicial review, providing a capacious perspective on the proper role of courts in a constitutional democracy, and he offers an illuminating critique of the contrasting political philosophies of Hannah Arendt and Isaiah Berlin.
Even if political theorists remain fixated on expounding the philosophical foundations of democracy, they need to complement their work with a firmer grasp of the structures through which democracy is realized. This is what political political theory means: theory addressing itself to the way political institutions frame political disagreements and orchestrate resolutions to our disputes over social ideals.